Nos últimos anos, a tadalafila deixou de ser associada apenas ao tratamento da disfunção erétil e, gradualmente, começou a circular em academias, grupos de treino e redes sociais como um suposto potencializador de performance física.
Com isso, muitos jovens passaram a utilizá-la antes dos treinos acreditando que o medicamento poderia melhorar vascularização, aumentar o pump muscular e até elevar o rendimento físico durante a atividade. No entanto, junto com essa popularização, surgiu também uma banalização preocupante do uso da substância.
O problema é que, aos poucos, um medicamento sério passou a ser tratado quase como um suplemento comum de academia. E justamente aí mora o risco.
Isso porque o uso indiscriminado da tadalafila, especialmente sem indicação médica e sem avaliação cardiovascular adequada, pode trazer consequências importantes não apenas para a saúde vascular, mas também para equilíbrio hormonal, pressão arterial, saúde mental e dependência psicológica relacionada à performance.
O que é a tadalafila?
A tadalafila é um medicamento indicado para disfunção erétil, hiperplasia prostática benigna e alguns casos específicos de hipertensão pulmonar. Ela atua promovendo vasodilatação — facilitando o relaxamento dos vasos sanguíneos e aumentando o fluxo de sangue em determinadas regiões do corpo.
É justamente esse efeito que fez muitos jovens começarem a usá-la de forma recreativa antes do treino.
Leia também: PubMed — Tadalafil: pharmacology and clinical use
Por que jovens estão usando tadalafila na academia?
A lógica é simples: como a tadalafila aumenta a circulação sanguínea, muitos acreditam que ela melhora o pump muscular, a vascularização aparente, a resistência e o rendimento no treino. Nas redes sociais, o medicamento virou “hack de academia”, principalmente entre homens mais jovens.
O problema é que existe uma enorme diferença entre sensação subjetiva e benefício comprovado cientificamente. E uma diferença ainda maior entre resultado estético momentâneo e segurança para o organismo.
Tadalafila melhora a performance no treino?
Até o momento, não existem evidências sólidas que sustentem o uso indiscriminado de tadalafila como estratégia para ganho muscular ou melhora significativa de performance em jovens saudáveis.
O que muitas pessoas percebem é apenas o aumento da vasodilatação periférica, gerando uma sensação maior de vascularização durante o treino. Isso não representa melhora real de hipertrofia, força ou condicionamento físico. E o uso sem indicação médica pode mascarar riscos importantes.
Leia também: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16670176/
Os riscos que poucos estão levando a sério
Muitos jovens utilizam tadalafila sem qualquer avaliação cardiovascular, sem exames e sem entender como o medicamento age no organismo. Os riscos incluem queda de pressão arterial, tontura, taquicardia, dor de cabeça intensa, alterações cardiovasculares e sobrecarga cardíaca.
Há ainda um agravante: boa parte desses jovens usa cafeína em excesso, termogênicos ou outras substâncias vasodilatadoras ao mesmo tempo. A combinação com pré-treinos estimulantes pode aumentar ainda mais o estresse cardiovascular — um cenário que raramente é considerado por quem busca apenas o pump.
O impacto psicológico que ninguém fala
Existe outro risco, menos discutido, mas igualmente relevante.
Quando um jovem saudável começa a associar confiança, desempenho e autoestima ao uso frequente de um medicamento, pode se instalar uma dependência psicológica silenciosa — tanto na academia quanto na vida sexual. Com o tempo, alguns homens passam a acreditar que precisam do medicamento para performar, mesmo sem qualquer necessidade clínica.
Leia também: https://www.nature.com/articles/nrurol.2012.149
Nem todo medicamento deve virar tendência
Existe hoje uma cultura perigosa de transformar medicamentos em ferramentas de performance estética. Já aconteceu com hormônios e estimulantes. Agora começa a acontecer com vasodilatadores.
O fato de algo viralizar na internet não significa que seja seguro. Na medicina, o contexto importa. Dose importa. Histórico clínico importa. Avaliação cardiovascular importa.
O que realmente impacta a performance
A maioria dos jovens que busca melhorar rendimento físico deveria primeiro olhar para os fatores que de fato fazem diferença: qualidade do sono, alimentação, treinamento adequado, controle do estresse, regularidade e recuperação muscular.
Nenhum medicamento substitui esses pilares. E quando existe necessidade médica real, o tratamento deve ser individualizado e acompanhado corretamente.
Quando a tadalafila deve ser usada?
A tadalafila é um medicamento importante e seguro quando há indicação adequada. Ela pode ajudar homens com disfunção erétil, determinadas alterações prostáticas e outras condições específicas.
Mas o medicamento não é moda de academia. E não é ferramenta recreativa — especialmente sem avaliação médica.
Saiba mais em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40014468/
Saúde não se constrói em cima de tendências da internet
A banalização da tadalafila entre jovens acende um alerta importante. O uso indiscriminado pode trazer riscos cardiovasculares, psicológicos e metabólicos que costumam ser ignorados em nome de um resultado rápido ou de uma estética momentânea.
Antes de utilizar qualquer medicamento, o essencial é entender se existe real necessidade, se há segurança e se existe acompanhamento adequado para isso.
Dr. Flavio Machado — CRM-SP 196137





